Escrituraria

Ele é meu clandestino, e eu sua pequena.

02Estávamos andando pelo parque, o vento batia em minha blusa e me fazia tremer.
— Que porcaria de blusa hein, Dexter. Não me esquenta em nada – Reclamei.
Esfrego as mãos nas mangas da blusa em uma tentativa inútil de conseguir me esquentar. Ele riu.
— Confesse, nada te aquece mais que meus abraços – E sorriu.
Aquele sorriso torto e malicioso no qual me tirava o ar e a consciência por alguns segundos.
— Cale a boca, clandestino, seus trapos não me servem pra nada, nem pra me proteger do vento.
— Não sei o porquê insisti em me chamar assim. – Ele revira os olhos e eu mordo os lábios.
(Não se confesse. Mude de assunto. Não fale o porquê o chama assim.)
— Você nunca me pediu pra entrar na minha vida, te expulsei desde a primeira vez que entrou, mas sabe se lá o motivo continua aqui, portanto você é um clandestino. – Dei os ombros a bater.
Droga, não devia ter dito isso.
Ele me olha como se não acreditasse no que eu havia dito, e novamente revira os olhos. Odeio quando faz isso.
— Quer maça do amor ou algo do tipo?
Odeio também sua facilidade de mudar de assunto.
— Não sei por que ainda pergunta. – Eu sorrio e ele também.
Continuamos a andar. As crianças ficam correndo ao nosso redor, é inacreditável o fogo que eles têm, todos estavam sem blusa e não sofriam nem um pouco com o castigável clima parisiense.
Queria voltar ser criança as vezes.
— Sua boca está um pouco roxa. – Comentei. – Gosto disso.
— Deve ser por esse castigável frio e por que um certo alguém roubou minha blusa assim que saímos de sua casa.
(A casa era dele também. Secretamente, mas dele. Assim como eu.)
— Cala a boca, Dexter.
Ele a calou, e eu também.
E o silêncio entre nós se tornou tão pesado que eu podia tocá-lo.
— Não acha tão clichê esses casais que veem até o parque para fazer piquenique , é tão ridículo, chega até me dar náusea.
Olhei para o céu segurando meu choro.
Semana passada havíamos feito amor a luz de velas – aliás, fora a coisa mais romântica que fizera – e depois nos imaginei fazendo piquenique sentados em uma dessas grandes toalhas xadrez, teríamos como cenário este mesmo parque, com estas mesmas pessoas e até mesmo com as crianças ao nosso redor correndo. Ele me daria uma maça do amor e eu a devoraria sem mesmo lhe oferecer. Ele reclamaria comigo e eu o mandaria calar a boca, e então nos beijaríamos. Seríamos felizes.
— Emma…?
Odeio quando me chama assim.
Apenas olho-o com cara emburrada e braços cruzados.
— O que foi que eu fiz agora, Em?
Odeio sua voz de anjo, odeio sua cara de anjo, odeio essa sua falsa inocência que faz com que você pareça mais ainda com um anjo.
Ele não é um anjo.
— Por que foges de relacionamentos, Dexter?
Sei que ele sente o mesmo que eu, sei que no fundo ele também quer estar ao meu lado. Não quero que ele seja como um príncipe, aliás não sou princesa. Quero apenas que admita seu amor por mim, pois quando falamos de amor, és um covarde.
— Ei, você sabe que é a minha garota.
— Não sou tua garota, Dex. Não fale isso.
— Só não admito que você é minha namorada, porque ganha de mim no videogame. – Sua voz indicava ironia.
Dexter, és um fraco.
(O amor não é uma fraqueza. Fraqueza é não saber lidar com ele.)
— Você sabe o que sinto, Emma. Não preciso repetir isso a todo momento, sabe que é você quem eu amo. Sabe que é em você que eu penso quando deito, mesmo não sendo eu corpo a dividir a mesma cama comigo. Eu sei lidar com os meus sentimentos, só não vejo o porquê admiti-los. Você me conhece, caramba.
— Já pensou que pode me perder? Que não vou estar aqui pra sempre?
Por um segundo vi seu olhar jorrar medo.
Já estava quase me arrependendo do que havia dito, quando ele pega em minhas mãos. Senti como se faíscas saíssem de seu toque.
— Sabe por que eu sempre volto? Porque mesmo após transar com garotas que sequer lembro o nome, quando terminamos, é seu sorriso que vem na minha mente, a sua risada deliciosa e o jeito que você fala. E volto pra cá. Venho dormir em tua casa todas as noites, como o maldito clandestino que sou e sabe por quê? Porque você faz com que me sinta puro. Porque com você não me sinto o mesmo cara, e quando estamos junto, porra, sinto com um daqueles mocinhos românticos de filme. Porque com você tudo fica calmo, você não tem noção do quão especial és para mim. Contigo faço amor, Em. Eu só beijo outras garotas pra ver se consigo esquecer o gosto de tua boca, o gosto do teu gloss de cereja. Nenhuma outra é você, caralho. E no fundo eu sei disso, sei que é contigo que vou estar no final das contas, mas porra, você tem que ser minha. Então por favor, me diz que ninguém vai tirar você de mim, por favor pequena.
Perdi o ar.
(Como se respira mesmo?)
Dei-lhe um beijo, e foi um dos beijos mais intensos entre nós.
— Eu te amo, clandestino.
— Eu também, pequena, eu também.

Thamires Bumussi.
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